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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sem medo do prazer e do desejo


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Como noticia hoje o Diário de Notícias, o Teatro São Luiz, em Lisboa, vai receber esta semana “As Bacantes”, um espectáculo que o Teatro Oficina, do encenador brasileiro José Celso, tem em cena desde 1995.

Não será senão uma adaptação muito livre do texto clássico de Eurípides, pretexto para um acontecimento artístico e popular diferente, misturando música, dança, actores, músicos e público, num ambiente de carnavalesco delírio comunal.

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Segundo José Celso, trata-se de uma homenagem “a Dionísio, que é o deus do vinho, da comida, do teatro, dos prazeres - que normalmente são proibidos, porque a nossa civilização tem medo do prazer e do desejo, de tudo o que é bom. E nós queremos celebrar essa libertação, da mente e do corpo. Dizer que nada é proibido."

Veja aqui, em jeito de contextualização, um texto publicado no site brasileiro araquara.com


Sem ter visto o espectáculo, ocorre-me o pensamento de que o apelo mais intenso de muitas destas manifestações artísticas passa pelo exorcismo dos inconfessáveis e primários impulsos íntimos de uma burguesia intelectualizada e reprimida. A coberto do escudo psicológico de ser, afinal, arte a nudez daqueles corpos desfilando para seu entretenimento, podem usufruir em paz de visões encenadas das suas fantasias.


Aquilo que no ambiente degradante e marginal de uma qualquer orgia promíscua num bas fond pecaminoso seria intolerável, torna-se comestível num espectáculo de teatro.

A excitação que seria de fonte pornográfica num contexto marginal, metamorfoseia-se em elevação artística. 

Assim, os jovens advogados, engenheiros, economistas ou professores sentados na plateia podem sem receio ou vergonha sentir o impacto de uma multidão delirante de corpos nus, podem prender os olhares nos seios dançantes de uma qualquer actriz sem ter de os desviar por pudor ou respeito.

Na arte, a burguesia domesticada pode olhar a nudez sem se desviar, pode excitar-se sem temer o pecado e pode, sentada nas filas da frente, sentir os cheiros e escutar a respiração de corpos que deseja. Na arte, a burguesia pode olhar o desejo sem ter de se esconder nas sombras anónimas de uma qualquer rua nocturna.

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